A conta completa

O que custa uma hora de consultório parada

Todo mundo calcula a consulta que não foi cobrada. Quase ninguém soma o aluguel daquela hora, o salário de quem estava lá e a hora do profissional, que correram exatamente iguais.

Por que a conta usual está incompleta

Pergunte a qualquer gestor de consultório quanto custa uma falta e a resposta é o valor da consulta. É a resposta certa para metade da pergunta.

Consultório não é um negócio de custo variável. A sala é alugada por mês, a recepcionista é paga por mês, a luz fica acesa, o autoclave roda, o software cobra igual. Nada disso diminui porque um paciente não veio às quinze horas. A falta, portanto, não subtrai receita apenas: ela desperdiça um custo que já foi pago e que era, naquele instante, a única coisa que aquele horário tinha para vender.

Existe uma quarta parcela que os relatórios nunca trazem, e ela é maior do que parece: a hora do profissional é um estoque perecível. Uma loja com estoque parado vende amanhã. Uma hora de terça-feira às quinze não existe mais na quarta. É por isso que a comparação certa não é com margem de produto, e sim com poltrona de avião — e companhias aéreas gastam somas notáveis para não decolar com poltrona vazia.

O custo de uma hora parada, em três perfis

Custo fixo por hora calculado como despesa mensal fixa dividida pelas horas úteis do mês, com 176 horas.

PerfilFixo mensalFixo por horaConsultaCusto total de uma falta
Consultório solo, sala compartilhadaR$ 4.400R$ 25R$ 200R$ 225
Odontologia, uma cadeira, recepçãoR$ 17.600R$ 100R$ 300R$ 400
Clínica com três salas e duas pessoas na recepçãoR$ 35.200R$ 200R$ 250R$ 450
Fisioterapia com equipamento próprioR$ 26.400R$ 150R$ 120R$ 270

Fonte: Perfis construídos a partir de faixas de aluguel, salário e despesa operacional plausíveis para 2026. São exemplos aritméticos, não pesquisa de mercado — substitua pelo seu fixo real, que você tem.

Repare na última linha: com consulta barata e custo fixo alto, o custo da estrutura ultrapassa o da consulta. É o perfil em que reduzir falta rende mais, e é justamente o que menos investe nisso.

A leitura em uma linha

quanto uma falta custa, em média destes perfis, em relação ao valor da consulta
1,3×
horas úteis num mês típico, o divisor usado na tabela
176
horas de terça às quinze disponíveis na quarta-feira
0

O terceiro número é uma piada com uma consequência séria: o estoque é perecível, e por isso a antecedência do aviso vale mais que o aviso.

Como calcular o seu número em dez minutos

Sem sistema, sem contador. Uma conta de guardanapo que resiste a escrutínio.

  1. 1

    Some o fixo mensal

    Aluguel, condomínio, energia, água, internet, salários com encargos, softwares, limpeza e a parcela de qualquer equipamento financiado. Não inclua material de consumo por atendimento — isso é variável e não corre quando o paciente falta.

  2. 2

    Divida pelas horas úteis do mês

    Use as horas em que o consultório está aberto, não as horas do mês. Vinte e dois dias por oito horas dá 176; se você abre meio período, use 88. O resultado é o custo fixo de manter a porta aberta por uma hora.

  3. 3

    Some o valor médio de uma consulta

    Se você atende convênio, use o que o convênio paga de fato, não a tabela particular. Essa diferença muda a conclusão em muitos consultórios.

  4. 4

    Multiplique pelas faltas do último trimestre

    Trimestre, não mês: agenda pequena tem variação demais para um mês significar alguma coisa. O número que sair é o que está em jogo, e é ele que decide se qualquer solução vale a mensalidade.

Se o total do trimestre for menor que três vezes a mensalidade de qualquer ferramenta, a resposta honesta é não comprar ferramenta nenhuma e continuar ligando.

As objeções que essa conta recebe

Eu reocupo quase todos os horários.
Se reocupa mesmo, a sua perda de receita é pequena e a conta acima não descreve o seu caso — o que sobra é o trabalho da recepção e a imprevisibilidade, que são custos reais mas de outra ordem. Vale conferir com honestidade quantos foram reocupados no último mês, porque a memória tende a lembrar dos encaixes e esquecer das salas vazias.
Custo fixo corre de qualquer jeito, então não é prejuízo da falta.
É um argumento contábil válido e uma péssima ferramenta de decisão. Contabilmente o fixo não muda; economicamente, aquela hora foi a única chance de convertê-lo em receita, e ela passou. Se o custo fixo não pertencesse a nenhuma hora específica, não haveria razão para existir agenda.
Não posso fazer nada sobre paciente que falta.
Sobre a falta em si, pouco. Sobre a antecedência do aviso, muito — e é aí que está o dinheiro. Um cancelamento que chega com sete dias vira encaixe; o mesmo cancelamento com duas horas vira sala vazia. A diferença entre os dois é uma mensagem mandada na hora certa.

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